Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

Mar de Creta














Creta é a ilha situada mais a Sul do vasto arquipélago que compõe as ilhas Gregas.
Em plena fronteira entre o Mar Mediterraneo Oriental e o Mar Egeu a Norte, situa-se uma vasta extensão de água conhecida por Mar de Creta.
A ilha de Creta é assim banhada por aguas quentes e clima ameno, devido á sua localização sul, de influência Norte Africana, temperada por ventos frescos que sopram predominantemente de noroeste.
A sua localização geográfica sempre a tornaram um objectivo estratégico importante ao longo dos tempos.
Desde o berço da civilização Minoica, uma das mais importantes civilizações da antiguidade, Creta foi palco activo em todas as guerras e conquistas de variadas civilizações e culturas, que deixaram a sua marca profunda na identidade actual da ilha.
Ainda hoje são visíveis vestígios de todos estes povos ao longo da ilha. Do famoso palácio de Knossos, que deu origem á lenda de Minotauro, ruinas Romanas, influência Muçulmana, fortes Venezianos, dominio Turco, até inumeros Mosteiros e igrejas Ortodoxas, muitas delas ainda habitadas por monges e freiras, algumas podendo ser visitadas, tudo isto se encontra numa ilha com 260 km de comprimento e cerca de 60 km de largura.













Para juntar a toda esta riqueza cultural, encontramos belas montanhas, algumas com mais de 2400 metros de altitude, que terminam em desfiladeiros estreitos e profundos, com paredes de 500 metros que parecem querer juntar-se esmagando-nos com a sua imponência.
Depois há o mar…calmo, quente de cor azul clara ou verde esmeralda, que recorta inumeras praias de belezas indiscritíveis.
Faltava-me conhecer que segredos esconde esse mar, abaixo da superficie e que segundo escritos Minoicos antigos, engoliram a famosa Atlantida…

Não me surpreendeu a ausência de cardumes de grande numero de individuos. É do conhecimento geral que o mar por aqueles lados há muitos anos que foi sobre-explorado e a sua preservação nunca foi encarada como prioridade. É urgente e existem planos para implementar na zona, reservas marinhas que garantam a preservação das espécies.
Os mergulhos foram realizados na bela baía de Mirabello, junto á Peninsula de Elounda através do Diving Center Pelagos, com base no hotel Minos junto a Agios Nikolaos.
Nessa area está previsto a implementação de uma reserva abrangendo uma area consideravel. Neste momento, para além de se notar o declínio do numero de indivíduos todos os anos em espécies importantes como as Salemas, algumas zonas mais junto á costa estão completamente "forradas" por linhas de pesca espalhadas no fundo, quer abandonadas por embarcações de pesca, quer por pescadores de costa.














Assisti á dedicação que o Stefanos tem com toda a area, limpando e observando quase cada planta ou pequena cavidade existente, ajudado pelo Chris que em todos os mergulhos recolhe um saco de rede cheio de novelos de nylon.
Para prejudicar ainda mais este equilibrio já tão débil, desde há cerca de 2 anos, uma espécie de alga invasora apareceu começando a destruir gradualmente todas as especies autóctones.
É um trabalho em contra-relógio e que parece não ter fim, num local onde o mergulho pode ter um potencial económico e turistico tão grande como todo o património terrestre.


"Operação Mercurio"














Maio de 1941. A II Guerra alastra em toda a Europa. As tropas nazis ultimam os preparativos para a invasão de Creta.
A ilha encontra-se defendida por tropas da Commonwealth, principalmente Australianas e Neo-Zelandesas apoiadas pela Royal Navy.
O General Kurt Student, um dos fanáticos seguidores de Hitler, planeia aquela que será a maior operação de invasão com recurso a tropas para-quedistas. Estava iminente o inicio da "Operação Mercurio", nome de código pela qual ficará registada a invasão da ilha de Creta.
No dia 21 de Maio de 1941, cerca de 500 aviões Junkers Ju 52 carregados de soldados para-quedistas dão inicio á invasão. De todos os aviões de transporte que participaram, perderam-se ou foram abatidos pelas defesas da ilha cerca de 170 aviões, alguns deles sem sequer conseguirem largar as tropas que tinham a bordo.
A ilha foi tomada após violentos combates e feroz resistencia, em 1 de Junho de 1941. Esta batalha foi um erro do ponto de vista de perda de vidas para as tropas nazis mas o objectivo foi alcançado.














Dos 22.000 soldados Alemães das tropas de assalto, morreram ou desapareceram em combate 3.600, muitos deles na primeira vaga de ataque.
A Alemanha nunca mais utilizou para-quedistas como primeiras tropas de assalto até ao final da guerra.
Os Junkers Ju 52 eram em 1939 aviões considerados obsoletos como bombardeiros, mas tinham sido muito utilizados na Guerra Civil Espanhola anos antes.
A Luftwaffe utilizava principalmente este tipo de aviões como transporte, inclusivé Hitler utilizou um Junkers Ju 52 como seu avião particular durante algum tempo
A sua alcunha era "Tante Ju" ( Tia Ju ) e era equipado inicialmente com um unico motor central. A partir de 1931 foram alteradas as especificações de fabrico e os Junkers Ju 52 começaram a sair das linhas de montagem equipados com 3 motores BMW 132T-2 de 820 hp , com 9 cilindros radiais.

















É com enorme expectativa que ao chegar ao Centro de Mergulho me informam que o spot desse dia será para mergulhar e ver um dos motores de um Junkers Ju 52 que se encontra afundado desde os dias da batalha de Creta.
Testemunha da história, foi colocado naquele local após ter sido recolhido em aguas mais fundas por um dos arrastões de pesca.
Os pescadores, após abrirem as redes, encontraram misturado com o peixe um dos famosos motores radiais da BMW.
Esse motor é devolvido aos Centros de Mergulho que operam no local e que decidem recolocá-lo onde hoje se encontra.
Durante o briefing informam-me também que, no local actual, já foram encontrados e recolhidos vários materiais bélicos tais como suportes de canhões de artilharia, bazookas e que vou ver também, espalhados pelo fundo, inumeros projecteis de artilharia intactos !!!

O dia está quente. O mar parece um espelho de águas azuis. Tudo em redor convida ao mergulho.
Vamos apenas três mergulhadores no barco. Eu, o Chris e o Stefanos como dive leader.
A viagem não demora mais que 15 minutos até ao local onde uma poita assinalada por uma embalagem de plástico a flutuar marca o sitio exacto por onde vamos descer.
A visibilidade é espectacular !! Mais de 20 metros permitem ver desde a superficie todo o cabo de descida. Descemos em conjunto e o Stefanos indica qual o caminho a seguir.
Sigo no meio, atrás o Chris.
Deixamos o cabo de descida no fundo a cerca de 18 metros. Descemos mais um pouco, utilizando como referencia do nosso lado esquerdo a parede quase vertical.
Passamos por uma enorme Raia escondida no fundo, que apercebendo-se da nossa presença levanta do fundo e rápidamente desaparece para maiores profundidades.
Consigo acompanhar com a vista, os seus graciosos movimentos até aos 40 - 50 metros de profundidade.

Continuamos em direcção Norte, lentamente. Atrás de mim o Chris recolhe e corta as linhas de nylon que vai encontrando para encher o saco e trazer para a superficie.
No ultimo olhar que faço ligeiramente para a minha rectaguarda do lado esquerdo, algo acima de mim, cerca dos 28 metros, chama-me á atenção.
Num primeiro olhar, por baixo, parece uma unha de uma ancora. Uma observação mais atenta revela uma enorme hélice de avião. Estamos no objectivo deste mergulho !!

A base do motor que acentou no fundo encontra-se já bastante encrostada na rocha do fundo.
No entanto, distinguem-se perfeitamente todos os componentes do motor. Os nove cilindros dispostos em circulo, com as suas enormes cabeças, as duas pás da hélice inteira ainda agarradas ao eixo e a protecção dos cilindros atrás da hélice. Está um pouco danificada, mas reconhecendo-se perfeitamente. O resto do conjunto, com todos os seus componentes lá está.
Oiço o tilintar do Stefanos. É hora de prosseguir o nosso mergulho.
Subimos lentamente dos 28 para os 20 metros, até uma zona de amontoados de pedra mais clara no fundo. Fazemos já o sentido inverso, na direcção onde tinhamos deixado o nosso barco.

Aparecem, espalhados pelas pedras, as primeiras munições de artilharia.
Algumas direitas no fundo, outras entaladas entre pedras. Estão perfeitamente conservadas. Notam-se em algumas a forma oval do cartucho, sinais do passar dos tempos sobre pressão.
É perigoso mexer ou manusear estas instaveis munições, sem ser por pessoal com formação e adequados procedimentos.
Aproximo-me apenas o suficiente para tirar umas fotos e certifico-me que não toco inadevertidamente em nenhuma delas.

Estas munições têm cerca de 75 cm de comprimento e 70 ou 80 mm de diametro na base. Das que me aproximei não consegui distinguir qualquer marca que permita identificar a que Exército pertenceram.
Após a invasão de Creta pelo Exército Alemão, a evacuação das Forças Aliadas foi feita á pressa. Em 1944, após um longo cerco efectuado pela Royal Navy o Exercito Alemão acabou por se render.
Em ambas as situações, ambos os Exercitos deverão ter tentado abandonar á pressa o seu equipamento militar para que não caisse em mãos inimigas.
Aquilo que hoje podemos ver no fundo do mar, é testemunho histórico de um dos periodos recentes mais dificeis da História Universal e principalmente de um povo que sofreu com todos estes acontecimentos violentos.


As Garoupas de Mirabello


Seria o mergulho seguinte.
O local é relativamente perto do mergulho anterior, pelo que praticamente foi sair do cais e cair na agua.
Os mergulhadores e o plano de mergulho seria praticamente o mesmo. Seguir o Stefanos, acompanhado pelo Chris e disfrutar dos mais de 25 metros de visibilidade que a agua nesse dia apresentava !!
As Garoupas são troféus muito procurados e pretendidos pelos pescadores locais. As que vão sobrevivendo são tão desconfiadas que ganhar a confiança destes animais requer muito tempo e dedicação.

O truque é levar algum pão e ir distribuindo á medida que vamos avançando.
Como são animais territoriais a disputa pelos bocados de pão termina sempre que avançamos para o território da Garoupa seguinte ou aparece um animal maior.
Os maiores exemplares encontram-se na zona mais funda. Andámos pelos 28 metros, tendo um perfil identico ao mergulho anterior, neste caso descemos até aos 18 metros, local onde a poita e o cabo estavam ancorados, aproveitámos o declive para ir descendo mais um pouco, mantivemo-nos na profundidade maxima atingida sempre dentro dos limites descompressivos e começámos a subir lentamente.

Durante os 45 minutos de imersão vi cerca de 20 Garoupas cujo tamanho iam dos 30 cm até ás maiores com pouco mais de 1 metro.
Mesmo com a estratégia de oferecermos alguns petiscos, nunca me deixaram aproximar mais que 5 a 6 metros.
Acabámos o mergulho em aguas baixas e sossegadas, de uma forma calma. O Stefanos sem mais petiscos para oferecer, o Chris com o seu saco cheio de novelos de nylon e eu, uma vez mais, convencido que vale a pena todos os segundos que passamos submersos.


Naufrágio do iate


A 25 metros de profundidade jaz á cerca de 20 anos um iate que devido a um temporal, pretendendo entrar na marina da baía para se abrigar acabou por embater violentamente na parede da falésia.
Após o embate o navio ficou encalhado numa zona que permitiu salvar todas as pessoas que seguiam a bordo e nos dias seguintes ao temporal, com o mar mais calmo, praticamente tudo o que se encontrava a bordo.

Com essas operações realizadas, praticamente apenas sobrou o casco em fibra.
Algum tempo mais tarde, foi rebocado e afundado no local onde hoje se encontra.
O barco tem cerca de 15 metros de comprimento e encontra-se em fundo de areia adornado para bombordo.
Por ser relativamente pequeno dá para percorrer com bastante calma todos os pormenores do casco. Inclusivé através de um enorme rombo no casco do lado de estibordo pode-se sem qualquer problema entrar naquilo que outrora foi o seu interior.

Somos permanentemente observados por um cardume de algumas dezenas de Lirios, com o seu porte altivo e desafiador.
Rápidos como setas descrevem circulos á nossa volta, em cardume, oferecendo os flancos brilhantes.

Passam tão perto que os podemos fitar nos olhos escuros e brilhantes.
Oiço uma vez mais o tilintar do guia Stefanos, indicando que está na altura de continuar o mergulho.

Subimos para uma especie de plano cheio de pedras de diversos tamanhos e formatos. As primeiras observações convencem-me que se trata de pedras trabalhadas pela mão humana.
Mas o que fazem ali ? Restos de uma aldeia não podem ser porque parece tratar-se de marmore, pela sua cor clara.
Marmore só pode significar uma coisa : um antigo templo ou palácio antigo.
A extensão é enorme. Seja o que for deveria ser muito grande.

Observo com mais cuidado. Ás vezes convenço-me que estou enganado, para logo de seguida mudar de opinião…Narcose a 15 metros ? Não me parece, também.
Prosseguimos o mergulho na direcção de uma pequena gruta que têm uma infiltração de agua doce. Na entrada da gruta, uma pequena Garoupa desaparece rapidamente.
Acabamos por ali o mergulho e dirigimo-nos para o barco.

Já no barco, tento obter informações sobre o amontoado de pedras que tinha visto. Não são feitas por mão humana !!
Na falésia á minha frente tenho a explicação. Ao longo dos anos a pedra de cor clara que compõe a falésia tem sofrido com a erosão desmoronando em grandes quantidades…

As coisas belas quase sempre têm explicações muito simples.

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

"Rabo d' Asno", Farilhões, Arquipelago das Berlengas















Faz parte…
Assim como ir a Belém e comer uns pasteis ou chegar ao alto da Serra e inspirar fundo, também faz parte ir ás Berlengas e apanhar mar "para homens"…pelo menos é sempre bom irmos preparados para isso. Se tal não acontecer é bom presságio para tentar a sorte também no Euromilhões.
Faz parte fazer a travessia cavalgando literalmente nas enormes paredes de agua, subindo e descendo cada vaga guiados pela experiencia adquirida ao longo das vezes sem conta que se passa naquele mar que nos separa do paraiso. É como sermos postos á prova pelos Deuses e depois de tamanha provação, recebermos o previlégio de entrar no Paraíso.
Berlengas, Estelas e Farilhões…o nosso destino seriam os rochedos mais longiquos do Arquipelago, para mergulhar num dos melhores spots de Portugal Continental : "Rabo d'Asno".
A ondulação e vento forte de Noroeste não deixavam grandes alternativas. Equipámos dentro da baía dos Farilhões, abrigada das correntes e já equipados esperámos a nossa vez de cair na agua junto ao rochedo.















Depois da entrada na agua, nadamos os metros que nos separam da parede rochosa, com especial atenção para que alguma onda não nos lance de encontro á rocha em cuja base se encontra a gruta e objectivo deste mergulho.
Depois é deixarmo-nos absorver pelo azul até ao fundo a 30 metros de distancia.
Chego primeiro á entrada da gruta e aguardo na entrada pelo João Toco. Aguardamos mais um pouco para sinalizar ao resto do grupo o local de entrada.
A escuridão da entrada é iluminada pelas lanternas. Levamos alguns segundos a habituar a visão ao local e ao espaço.
Uns metros á frente, antes da chegada á galeria, permite-nos ver a saida no outro extremo.
Dentro deste espaço o silencio e a calma são presença que se faz sentir. É extraordinário !! Apetece-me ficar ali um pouco a apreciar a sensação de ausencia de tudo…nem o mar, nem as correntes, nem sequer o ruido se faz notar. Esta ausencia apenas é interrompida pela respiração e exalação de milhares de bolhas que se concentram no ponto mais alto da galeria, tentando apressadamente fugir por todos os meios para a superficie.













Do lado esquerdo lá estava a Abrotea residente, assustada com o brilho da lanterna, algumas Moreias escondem-se da luz e um pequeno Safio aproveita a desorientação de um peixe para atacar…foi por muito pouco que o pequeno peixe conseguiu escapar !
Chego ao extremo da passagem e inverto o sentido. No regresso vou dar mais atenção ás "prateleiras" superiores onde a visão de Lagostas e Lavagantes eram presença habitual…desta vez não avisto nenhum exemplar.
Cruzo-me com uma nova dupla que chegou, trocamos o sinal de OK. Já junto á saida, agora do lado direito a Abrotea encontra-se acompanhada por um enorme cardume de Fanecas com os seus flancos brilhantes e deslocação em cardume.














Voltamos a sair. Temos ainda muito tempo de fundo para aproveitar e o espectaculo oferecido pela famosa parede ainda não tinha começado…
No fundo junto á saida da gruta avistei pelo menos quatro exemplares de Alicia Mirabilis, dispostas quase que geometricamente num semi-circulo. Polvos, Rascassos e cardumes de Sargos fazem parte das especies tambem avistadas.
Estava na altura de subir lentamente aproveitando cada centimetro da parede espectacular até á superficie. As belezas de formas e cores indiscritiveis oferecidas pela variedade de vida que se encontra agarrada á parede surpreende-me sempre que ali vou. Há sempre pelo menos meia duzia de motivos novos em cada mergulho.
Estava terminada esta imersão. O intervalo e o merecido lanche seriam consumidos no porto da Ilha da Berlenga, onde tambem seria preparado o segundo e ultimo mergulho do dia.


"Lagosteira e Cova do Sono"




















Mergulho super facil e onde a profundidade maxima não excede os 10 metros. Optimo para relaxar e para 2º mergulho quando as opções são escassas devido ao vento e á ondulação.
Entrar do lado Este perto do Forte, passar pela passagem da "Lagosteira" e chegar á "Cova do Sono" para aproveitar no maximo 60 minutos de tempo de fundo.
O fundo nesta altura está coberto por algas vermelhas, aproveitando algumas especies para se esconderem por baixo da vegetação.




















É um local extremamente calmo, onde por vezes surgem surpresas.
Robalos, Sargos em cardume, Salmonetes, uma Solha e até uma Dourada foram as principais atracções.
No final dos 60 minutos, tudo aquilo sabia a pouco.
Estava na altura de voltar á superficie e encarar a viagem de regresso. É sempre mais facil o regresso. Ajudados pelas correntes e pela ondulação, cansados mas satisfeitos, chegamos a Peniche.




















Tinhamos ainda a tarefa de descarregar e arrumar todo o material, assim como fazer a viagem de regresso até casa. Cansados mas satisfeitos, falamos da experiencia passada e futura, que incluí certamente muitas mais visitas ao Paraíso, que por aqueles lados dá pelo nome de Berlengas.

Sábado, 3 de Abril de 2010

Planeta Aquário


Era uma vez…
Um Planeta perto da Terra, que alguns seres humanos, priveligiados, eram convidados a visitar.
Neste Planeta viviam umas formas de vida muito diferentes dos seres humanos. Nós, seres humanos, apenas podiamos estar durante um tempo limitado neste Planeta, mas tinhamos a capacidade de o destruir rapidamente. Aliás, os ultimos séculos da nossa existência, temos feito um enorme esforço por o destruir por completo.
Neste Planeta, reina a calma, todos os movimentos são feitos de forma lenta e harmoniosa. Não existe ganância e avareza e os seus habitantes sobrevivem de forma equilibrada.


Somos convidados e como tal temos a obrigação de nos portar como tal. O Planeta Aquário merece respeito e temos de nos adaptar á sua realidade.
Entrei…
A porta mágica foram umas simples escadas, gastas pelo tempo e pelo uso.
Entro rapidamente e os restos do meu planeta desvanecem-se rapidamente. Só ouço a minha respiração, pausada.
Na minha frente vejo os primeiros habitantes deste Planeta. Parece que alguns vieram receber-me.


Seguem-me até casa dos irmãos Gobidae.
Nessa casa vivem três "velhos" amgos : "Huguinho", "Zézinho" e "Luisinho". Diferentes nas suas personalidades como todos os irmãos.
"Huguinho" é o mais velho. Responsavel, astuto e inteligente, só permite alguma confiança limitada. As aproximações e o contacto têm de ser muito bem negociadas, mas a sua curiosidade pelo "alien" que lhe visita a casa permite-lhe aprendizagem. Servirá por certo mais tarde, todo este conhecimento adquirido.


"Zézinho" é timido e receoso. Têm sempre medo de tudo, principalmente daquilo que não conhece. Não arrisca mais que 20 cm em redor da sua casa e mesmo quando, por alguma necessidade se aventura, avança desconfiado e regressa rapidamente ao unico local em que se sente seguro.
Por mais tempo e esforço que lhe dedique, tenho a plena consciencia que pouco mais vou obter da sua simpatia.


"Luisinho" é o extrovertido da familia. É impressionante. Quando me aproximo, já ele vêm a caminho para me receber. Por cada fotografia que tiro, recebo uma nova pose para a seguinte.
É impulsivo e a sua curiosidade é mais forte do que qualquer receio. Dá voltas, rodopia, coloca-se a 1 cm da minha objectiva. Pelo á vontade parece que me conhece á anos !!



O tempo de permanência no Planeta Aquário é limitado. Tenho de pensar em despedir-me dos meus amigos e voltar para o meu planeta.
Inicio o regresso, já com saudades dos três irmãos.
No caminho de regresso encontro o casal Sepia em altura de acasalamento. Enquanto a femea permanece inalterada á minha presença, o macho coloca-se entre mim e a sua femea emitindo variações e alterações na sua coloração e textura. A proxima geração de jovens chocos estará assegurada, tal é a dedicação do enorme macho.
Sinto-me ancorado a este mundo, tal como uma velha ancora que aqui ficou após o barco que lhe pertencia ter partido.
A sensação de paz e sossego é tanta neste Planeta que aqui ficará para a eternidade, servindo de refugio e apoio a outros habitantes. Daqui a uns anos lá estará, mas de certo irreconhecivel.


Já no final sou escoltado até á saida por um estranho habitante, mesmo pelos padrões deste Planeta Aquário.
Aparentemente sem cerebro, necessita da luz solar para viver, tal como as plantas no planeta terra. Tem locomoção e alimenta-se de peixes que caça com os seus tentaculos urticantes.
Já vi os efeitos que provocam nos seres humanos, semelhante a queimaduras. Não me aproximo demasiado.
Á minha frente tenho a mesma escada que me permitiu a entrada. Após uma hora e contra a minha vontade, estou de volta ao planeta terra.


Assim que chego a terra, na minha frente um espectaculo tipico deste nosso planeta.
Um unico ser humano conseguiu bloquear tudo e todos com o seu veiculo, recusando-se a retirá-lo ou desviá-lo…não percebo bem o que se passa, nem me interessa, ainda estou noutra "onda".
Ao fim de uma discussão, envolvem-se alguns seres humanos em confrontos fisicos com o referido "prevaricador"…

Se ao menos tivesse mais ar para voltar a visitar os amigos que tinha deixado...

Mergulhos em água doce - Mina da Orada















Uma das alternativas para quem "sofre" com falta de azoto no sangue e necessita do prazer que qualquer imersão oferece mesmo quando o mar não ajuda, é realizar imersões em agua doce, aproveitando barragens, lagos, represas naturais ou criadas artificialmente e que no final do Inverno, principalmente dos anos mais chuvosos, estão quase sempre na sua máxima cota, permitindo mergulhos para todas as certificações.
Este tipo de imersões são caracterizadas por factores importantes e que devem ser tidos em conta, sendo a mais importante e comum a qualquer outra imersão a Segurança.
Para se planear com segurança redobrada uma imersão em agua doce, é extremamente importante conhecer ou termos recolhido o máximo de informações possiveis sobre o local.
Um planeamento e preparação atempada da imersão, um breefing com o máximo de informação, profundidades e eventuais riscos ajudam sempre nessa preparação. É também fundamental que todos os mergulhadores tenham consciencia dos riscos e que não haja a menor duvida em relação á imersão que vão efectuar.
Para além desta preparação mais técnica, é também essencial que os mergulhadores se sintam á vontade no ambiente que vão encontrar.
Normalmente são locais em que a temperatura e a visibilidade são muito inferiores ás encontradas no mar. Para quem não esteja habituado poderá ser mais um factor de risco acrescido.
A fauna e flora destes locais é muito especifica, pouco abundante e caracteristica, não deixando muitas vezes de surpreender, suscitando maior curiosidade e admiração.
Em Portugal, com quase 900 km de costa Atlantica, onde há locais que permitem efectuar mergulhos todo o ano, mesmo no Inverno mais rigoroso, os mergulhos em aguas interiores são ainda pouco explorados e conhecidos.
Essa tendencia tem sido alterada com o surgimento de Centros de Mergulho que operam em barragens, oferecendo já uma grande variedade de spots interessantes.
Depois há o resto…
Somos um País abençoado, por enquanto segundo alguns especialistas, em locais com aguas interiores. Locais esses situados de Norte a Sul, do litoral ao interior mais profundo, onde muitos mergulhadores aproveitam e vão realizando os seus mergulhos, dando a conhecer esses locais.















Quando me convidaram para participar num mergulho em pleno interior Alentejano, aceitei de imediato ! Não por saber que o mergulho poderia ser surpreendente em algum aspecto, mas sim por ser num local diferente, na companhia de amigos que não vejo todos os dias e porque estaria, na minha opinião, na melhor Região gastronómica e vinícola do País...
De garantia só tinha a boa disposição e amizade…nos dias de hoje, era mais que suficiente para aceitar o convite. Quanto ao mergulho viria por acréscimo.
A viagem é longa. Três horas separam Lisboa da Vidigueira, contando já com as necessárias paragens. Os kilometros de auto-estrada hoje em dia fazem-se bem…e pagam-se ainda melhor !
Horários combinados em noite de mudança de hora obrigaram a utilização de vários despertadores de backup, já que a alvorada teria de ser obrigatoriamente cedo. Fazer a viagem, o mergulho combinado antes de almoço deixando o resto da tarde para o convívio, regresso no final do dia aproveitando as mais horas uteis de sol.















Encontrámo-nos com o pessoal que subia de Beja, á saida da Vidigueira e dirigimo-nos ao estilo de "casamento" até Orada, onde está localizada a antiga mina já desactivada.
Aí, já alguns dos amigos que tinham saido do Algarve esperavam a nossa chegada, em conjunto com um grupo de Cave Divers de Huelva. O grupo estava reunido !
Boa disposição, dia de sol, a primeira paragem no café-restaurante serviu para um primeiro briefing, improvisado entre um café e dois dedos de conversa com a equipa Espanhola. Dos presentes, eram quem melhor conhecia o local, principalmente a zona das grutas, antigas galerias da mina.

A Mina da Orada está desactivada desde 1971, altura em que parou a extração de minério de ferro.
A industria extratora sempre provocou grandes impactos na paisagem. No caso da Orada, a cratera deixada tem cerca de 80 metros de altura, da parte superior do monte, sendo que cerca de 30 metros encontram-se actualmente submersos, devido a infiltração por lençois freáticos e agua das chuvas. O lago assim formado tem cerca de 100 metros de comprido por cerca de 50 metros na sua maxima largura.
A sua forma lembra um oito, dividindo em dois "poços". Um menos profundo e sem paredes em redor, o outro mais profundo ( cerca dos 30 metros actualmente ) e com uma parede onde ainda hoje se encontram alguns tuneis das antigas galerias.
A ideia deste mergulho era ter uma visão geral da area submersa. Do local onde deixámos os carros até á entrada na agua temos de descer cerca de 40 metros de uma rampa que só permite o acesso a pé.
















Chegados junto ao lago, há pelo menos 3 locais que permitem o acesso á agua. Logo que se entra na agua, 1 metro á frente e temos já uma profundidade consideravel.
A entrada completamente equipados é assim fundamental.
Na zona mais baixa, até cerca de 3 metros de profundidade e escondidos nos juncos, podem ser vistas algumas Carpas juvenis que aproveitam a vegetação para se camuflarem e passarem despercebidas.














Alguns Achegãs podem ser vistos também, mas estes, ao minimo sinal de perigo desaparecem imediatamente a grande velocidade.
Chegados ao poço mais fundo, muda a paisagem. Escarpas de rocha a pique até atingirem o fundo, troncos velhos apodrecidos e lodo que cobre tudo com uma camada escura por baixo, devido ao pó da antiga extração e amarelo por cima dos depositos de sedimentos após terem ficado submersos.
A temperatura ronda os 14º C aos 13 metros e a visibilidade varia entre os 6 e os 0 metros, caso não se tenha muito cuidado !!











As antigas galerias surgem assim quando atingimos a escarpa maior. São buracos enormes e completamente escuros, onde as lanternas têm muita dificuldade em fazer penetrar a luz.
Seguem-se continuamente e em sequencia, por cima de nós, por baixo, á medida que avançamos. Buracos negros onde em alguns casos cabem dois ou três camiões lado a lado.
Somos forçados muitas vezes a seguir o contorno abobadado da entrada, já que a visibilidade não permite distinguir o outro extremo da galeria.
Algumas dessas antigas galerias têm escombros na sua entrada, advinhando algumas derrocadas. Não é de todo aconselhavel a entrada em qualquer das grutas, sem formação, preparação adequada e equipamento especifico de mergulho em gruta !!!
Das conversas com os Cave Divers que mergulharam conosco, algumas das grutas permitem mais do que 20 metros de penetração, acabando sem qualquer continuidade. Algumas têm comunicação com outras galerias, continuando a ser exploradas.















Ao fim de 1 hora estavamos no extremo oposto dando por terminado o mergulho.
Era agora altura de sairmos da agua, arrumar todo o material e dirigirmo-nos para o restaurante, onde nos esperava uma bela refeição já merecida.
Será sempre um spot de mergulho a considerar, sempre que, á semelhança deste Inverno, as condições de mar permaneçam más durante muito tempo.
Toda a area submersa permite muitas opções de mergulho e de exploração.
Muito ficou ainda por ver.