sábado, 26 de julho de 2008

Naufrágio do "Hildebrand"

Durante o ano de 2007 e em conversa com vários amigos também mergulhadores surgiu a ideia de efectuar uma pequena pesquisa e reunir alguma informação sobre a história deste barco.
É um local de mergulho largamente conhecido e frequentado, com alguns motivos de interesse, tinha algumas informações dispersas, mas não havia nada escrito que reunisse e compilasse toda essa informação.
Aquilo que começou por ser uma conversa de amigos após um mergulho no local, tornou-se rápidamente em algo mais sério.
Todo o trabalho de pesquisa demorou alguns meses e o resultado foi publicado finalmente na Revista Planeta d'Agua, edição de Novembro de 2007 e pode ser lido e consultado por todos os que quiserem conhecer a história deste barco.
Por motivos de edição da revista, mesmo porque o importante era publicar a história e o que tinha acontecido naquela manhã de Setembro de 1957, ficou por publicar algum do trabalho que foi desenvolvido, como fotos dos mergulhos que foram efectuados quando se recolhia mais algumas informações e algumas fotos da epoca, que gentilmente foram cedidas por algumas entidades para publicação.
A grande mais valia do trabalho e que se tornou tambem a mais valia do artigo foi o relato de uma senhora Inglesa que viajava a bordo no dia do acidente.
Tornámo-nos correspondentes e ainda hoje trocamos algumas informações e ideias de possiveis trabalhos sobre o "Hildebrand", já que em Inglaterra um jornal local se interessou pela história e fez o convite para que fosse publicado a versão inglesa do artigo focando principalmente o relato de Mrs. Ruthie Lockyear.
Durante o trabalho de pesquisa consegui tambem um contacto em Espanha onde após algumas trocas de mails e confirmações se chegou á conclusão que durante os trabalhos de recolha dos destroços do navio, um dos batelões se tinha afundado também no mesmo local.
As fotos e informações que me chegaram através do contacto espanhol explicam talvez algumas das observações efectuadas em determinadas areas e alguns objectos que se têm encontrado ao longo dos tempos no local do afundamento.
Esse batelão chamava-se "Luisa", tinha 50 toneladas e afundou a 17 de Junho de 1962.
Trabalhava em conjunto com mais dois barcos, o "España" e o "Puente del Burgo" no desmantelamento, recolha e transporte dos destroços do "Hildebrand" ao serviço de uma empresa de mergulhadores profissionais, a Siebe Gorman.
Na altura do seu afundamento tinha 34 toneladas a bordo e 5 pessoas.
Á parte os danos materiais, com a perda do batelão e da sua carga, todos os cinco tripulantes conseguiram escapar ilesos.

Mergulhar no "Hildebrand"

Hoje, após 50 anos, os trabalhos de recolha e a fúria do mar do local, os destroços existentes são muito poucos.
No entanto ainda se conseguem ver pequenas partes do casco, com as suas cavernas, escotilhas, parte de um mastro, chapas espalhadas por uma área considerável e restos de variado material (ferragens, torneiras, etc.).
A zona é predominantemente areia, com algumas pedras de pequena dimensão na parte mais afastada da costa e á medida que nos aproximamos da costa a quantidade e tamanho dessas rochas vai aumentando.
A "fola" e correntes fortes são bastantes habituais no local, tornando muitas vezes impossível o mergulho.
Por ano, contam-se pelos dedos os dias em que se reúnem as condições óptimas para um mergulho, o que torna um aparente mergulho de baixa profundidade em algo mais complexo e a requerer maior atenção.
A profundidade varia entre os 8 e 11 metros dependendo da maré e do local em que nos encontramos.
A visibilidade, variável e dependente de vários factores, situa-se entre os 2 e os 12 metros, sendo mais provável encontrar cerca de 5 metros com alguma suspensão.
Há dois centros de mergulho a fazerem saídas regulares para o local, ambos bastante conhecedores e experientes no spot.
Como alternativa e nos dias em que isso é possível, pode-se entrar por terra, aproveitando a lage de pedra situada mesmo ao lado do Forte de S. Jacinto em Oitavos.
Com a recuperação do forte, existe até um belo parque de estacionamento para equipar e deixar a viatura enquanto efectuamos o nosso mergulho.
No entanto, a entrada pelas rochas não é fácil. Requer bastante atenção ás condições de mar e trabalho de equipa principalmente depois na saída.
Aliando a estas condições a possibilidade de correntes e mar relativamente forte, a opção de uma saída organizada por um dos centros de mergulho locais é de ter bastante em conta.
Quanto a vida marinha, aproveitando os destroços como recife artificial, abundam as moreias (há um local onde são em numero considerável), safios, polvos, santolas e navalheiras em menor numero, alguns bodiões e fanecas juvenis.
Não existem exemplares grandes, não esquecer que o local também é frequentado por caçadores submarinos, que aproveitam também as facilidades de entrada na água, mas a vida que existe aliada aos destroços ainda visíveis torna o mergulho interessante.
É muitas vezes utilizado também como spot para imersões nocturnas.
Aí, podemos ver os sempre presentes polvos, santolas, chocos, lulas e um ou outro safio pequeno.
Para se usufruir bem desta imersão nocturna é necessário observar e respeitar todos os procedimentos de segurança e fazer-se acompanhar de uma boa lanterna com bastante autonomia.

A "Dinastia" Hildebrand
Hildebrand, nome de origem Nórdica, ligado á mitologia e religião, significa "aquele que persegue o seu objectivo" o que "nunca nega um combate".
O nome forte e confiante de Hildebrand serviu ao longo dos tempos para apadrinhar três navios, distintos e distantes entre si, no tempo e na sua missão.

SMS Hildebrand
Construído para a Marinha Imperial Alemã, fez parte de um conjunto de oito outros barcos, da Classe Siegfried, colocados á disposição entre os anos de 1889 e 1895.
A sua função, tal com os restantes barcos da mesma classe, era a defesa costeira.
Fortemente armado em detrimento da velocidade e autonomia, esteve ao serviço até 1909 na costa Norte da Alemanha ( Nordsee e Ostsee).
Foram-lhe introduzidas grandes alterações que lhe concederam maior autonomia, mas que lhe reduziram algum do poder de fogo que possuía. Depois das alterações, passou a contar com depósitos para 580 tons. de armazenamento de carvão (inicial. 220 tons.)
No início da I Guerra Mundial integrou a Esquadra comandada pelo Contra – Almirante Ekermann.
Em 1916 foram-lhe retiradas as principais armas e serviu como estaleiro na cidade de Windau.
Após ter encalhado na costa Holandesa, em 1919, o que restava do navio foi dinamitado em 1933.
Características:
Ano de Construção: 1890 em Kiel, foi lançado á água em 1892
Dim. Originais: 79 m x 14,9 m x 5,7 m
Após alterações em 1903: 86 m x 14,9 m x 5,4 m
Peso original: 3741 toneladas., após alterações ficou com 4326 toneladas.
Propulsão: 8 caldeiras a vapor, sendo 2 verticais de 3 cilindros cada, com depósitos de tripla expansão, permitindo atingir uma velocidade máxima de 15 nós
Tipo: Navio de defesa costeira
Armamento: 3 peças de artilharia de 24 cm, 10 peças de artilharia de fogo rápido de 8,8 cm, inicialmente contava com 4 tubos lança torpedos passando após 1903 a contar apenas com 3.
Blindagem: entre 180 e 240 mm de aço.
Tripulação: 276 tripulantes, entre oficiais e marinheiros
Datas relevantes:
1890 Construído nos estaleiros de Kiel é lançado á água em 1892 ficando ao serviço como navio de defesa costeira, na costa Norte da Alemanha.
Entre 1899 e 1903 sofre modificações profundas que lhe concedem maior autonomia, retirando-lhe algum poder de fogo.
1914 integra a Esquadra do Contra Almirante Ekermann ficando ao serviço até 1916, altura em que lhe retiram as principais peças de artilharia ficando ao serviço como estaleiro.
1919 encalha na costa Holandesa.
1933 os seus destroços são dinamitados.

SS Hildebrand 2
Este navio de carga e passageiros, construído em Greenock, Escócia fez a viagem inaugural em 1 de Abril de 1911 para a Booth Steamship Company, ligando Liverpool e Manaus, no Brasil.
Durante a I Guerra Mundial serviu o 10º Esquadrão de Cruzadores ao serviço da Marinha Britânica escapando por algumas vezes ao ataque de U-boats Alemães no Atlântico, durante as travessias que efectuou integrando os inúmeros comboios com destino á Europa.
No final da guerra, retornou para o serviço civil, ficando ao serviço da Booth Line para as viagens entre a Grã Bretanha e Manaus, fazendo escala no Porto, Lisboa e Funchal.
Características:
Ano de construção: 1911, Scotts Shipbuilding& Engineering Co, Ltd de Greenock, Escócia
Dimensões: 440,3 x 54,1 x 27,3 pés
Peso: 6995 tonelagem bruta, 4205 tonelagem de frete
Propulsão: Vapor de 2 " x 4 cilindros de 946 nhp ( nominal horse power) atingindo uma velocidade máxima de 12,5 nós.
Tipo: passageiros e carga
Datas relevantes:
1 de Abril de 1911 é feita a sua viagem inaugural entre Liverpool e Manaus, fazendo escala em Le Havre.
5 de Dezembro de 1914 entra ao serviço da Marinha de Guerra Britânica, mudando de nome para HMS Hildebrand, ficando integrado como Cruiser Force "B" do 10º Esquadrão.
2 de Outubro de 1917 o comboio que integra é alvo de ataque de um submarino alemão, que provoca estragos e afundamentos entre alguns dos barcos.
17 de Janeiro de 1917 retorna ao serviço de carreiras da Both Line.
Entre 1922 e 1930 era o único navio de passageiros de 1ª classe a efectuar escalas regulares em Lisboa, Porto e Funchal na viagem que ligava Liverpool a Manaus
19 de Julho de 1932 acaba as suas viagens e aventuras, é enviado para Milford Haven.
Fevereiro de 1934 é vendido por 11.000 £, é desmantelado em Monmouth pela J. Cashmore of Newport.

R.M.S. Hildebrand 3
Navio de linha, construído nos estaleiros da Cammell Laird & Company Ltd, em Birkenhead no ano de 1951.
Fez a sua viagem inaugural no final desse mesmo ano.
Substitui do mesmo construtor e para trabalhar na mesma companhia o navio R.M.S. "Hilary" que serviu com distinção durante a II Guerra Mundial, ao serviço da Marinha Britânica.
O "Hildebrand", maior e mais recente, teve uma existência mais calma, fazendo as suas viagens entre Liverpool e Manaus com escalas em Lisboa e Pará, estado do Belém, Brasil.
Praticamente sete anos após a sua viagem inaugural, encontra o seu fim junto ao forte de Oitavos em Cascais, encalhando num dia de nevoeiro cerrado e mar calmo.
Características:
Construído em 1951 por Cammell Laird & Comapany Ltd, Birkenhead
Dimensões: 439 x 60,3 x 34,6 pés
Peso: 7735 tonelagem bruta, 4368 tonelagem de frete
Propulsão: 2 turbinas a vapor, pressão de trabalho de 490 psi, produzindo 1200 nhp e uma velocidade máxima de 15 nós
Tipo: Navio de linha para passageiros e carga
Datas relevantes:
20 de Julho de 1951 lançado á agua para a companhia Both Line Limited
28 de Dezembro de 1951 viagem inaugural entre Liverpool e Manaus
25 de Setembro de 1957 encalha em Oitavos, Cascais ás 10 horas da manhã devido a cerrado nevoeiro. Não se registam danos pessoais, o que muito ajuda o mar se encontrar anormalmente calmo.
28 de Outubro de 1957 após inúmeras tentativas de soltar o barco das rochas, é dado como perdido, vendido como sucata e desmantelado.
Ficou no local ainda durante alguns anos. A força do mar e dos elementos continuou a destruição iniciada nessa manhã de Setembro.
Após os trabalhos de desmantelamento, ainda hoje são visíveis algumas partes do barco, no fundo.

Esta foi a "dinastia Hildebrand".
Começando num navio de Guerra da Marinha Imperial Alemã, passando por um navio de passageiros que convertido ao esforço de guerra Britânico sobreviveu a inúmeras aventuras na travessia do Atlântico, até ao ultimo, talvez o menos feliz na sua existência, acabando num acidente, dando por terminadas as suas viagens de forma abrupta quando certamente teria ainda muito que navegar.
No final da década de 50, as Companhias aéreas começavam a exercer forte concorrência ás companhias de navegação, mas havia ainda muitos passageiros e principalmente carga cuja escolha recaía na travessia do Atlântico nestes belos e eficientes navios.
Todos eles fizeram justiça ao seu nome!
50 anos após o acidente em Cascais, o "R.M.S. Hildebrand 3" porpociona ainda belos e raros momentos de prazer a quem o pretende visitar, agora, onde repousam alguns dos seus restos.

Os estaleiros da Cammell Laird em Birkenhead

Foi um dos mais importantes construtores navais do sec. XIX e XX.
Deveu-se á junção entre duas empresas: a Laird , Son & Co de Birkenhead e a Johnson Cammell & Co de Sheffield.
O seu fundador, William Laird, iniciou os trabalhos em 1824 tendo-se junto o seu filho quatro anos depois, tornando-se uma empresa em rápida expansão devido ás técnicas inovadoras na construção de navios e das suas propulsões.
A empresa de Charles Cammell, Henry e Thomas Johnson, a Johnson Cammell & Co, produzia toda a espécie de produtos em ferro desde rodas a rails para caminho-de-ferro.
A junção das duas empresas originou a Cammell Laird que entre os anos de 1829 a 1947 construíram mais de 1100 navios de todos os tipos.
A época pós 2ª Guerra Mundial foi muito atribulada para a empresa.
Desde a nacionalização dos seus estaleiros e a sua integração em conjunto com outros fabricantes de navios, até dificuldades financeiras e recessão devido á anulação de alguns contratos, a empresa foi sofrendo de tudo.
O seu historial e palmarés é algo verdadeiramente notável.
Das suas construções saíram milhares de navios, alguns ainda hoje no activo por todo o mundo fazendo parte da Historia Universal.
Os estaleiros em Birkenhead foram vendidos apenas em 2001 e o ultimo navio concluído foi o submarino nuclear H.M.S. Unicorn ( S43 ) no ano de 1993.
A Cammell Laird ainda hoje se dedica á construção, reparação e alteração de navios, agora com sede em Gibraltar.
Nas docas de Birkenhead ainda hoje se pode visitar o submarino H.M.S. Onyx de 1966
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